Notícia de um sequestro

Mikhail, nosso amigo russo, disse que queria ir a Mérida e como não conhecia a língua espanhola, tomamos nós todas providências para sua viagem aos Andes. Reservamos hotel, conferimos horários, traduzimos guias de viagem e, como última medida de segurança, eu mesmo o levei ao terminal e o coloquei dentro do ônibus, pequeno e pirata, que o transportaria para Mérida durante a madrugada (“como uma galinha”, ele descreveria depois).

Ao seu lado no fundo do ônibus, um jovem de pele muito branca e cabelo muito negro viajava com um cachorro no colo, se apresentou em inglês e disse que poderia ajudar Mikhail a chegar são e salvo a seu destino (na rodoviária, havíamos descoberto que ele teria de fazer uma pequena baldeação no meio do caminho).

Me despedi do russo com a promessa de que o encontraria dentro de algumas semanas em Mérida.

Eram 7 da noite e o ônibus deveria chegar aos Andes nas primeiras horas do dia seguinte.

Naquele mesmo dia, recebi uma mensagem no celular: “Adriano, aqui é Niklas, o cara que está com Michael no ônibus. Ele pergunta o telefone do hotel onde vai ficar em Mérida.”

Informei o número do hotel. Niklas não respondeu mais.

Ao meio-dia, ligamos ao hotel Puerta de Mérida para saber se Mikhail já tinha chegado. Não tinha. Ligamos a Niklas. Só chamava.

“Hmm, o ônibus deve ter quebrado, acontece sempre”, tranquilizou-se Amry, nosso anfitrião em Caracas.

Voltamos a ligar no dia seguinte. “Ainda não chegou”, nos respondeu a atendente do hotel. O telefone de Niklas só chamava. Deixei uma mensagem perguntando sobre o paradeiro de nosso amigo. Não tive resposta. Deixei várias mensagens, tive zero respostas.

No terceiro dia, quando a funcionária do hotel repetiu que não fazia ideia de onde poderia estar Mikhail e quando o telefone de Niklas pareceu estar desligado para sempre, começamos a nos desesperar.

Existe um pânico generalizado sobre estrangeiros viajando pela Venezuela, um pânico que parece ser disseminado mais por venezuelanos do que pelos próprios estrangeiros. Todos os amigos locais a quem eu contava a história do sumiço do russo me apresentavam as mais horripilantes hipóteses sobre seu paradeiro. Sequestro, roubo, assassinato… um gringo viajando sozinho por um país em crise não era visto como uma pessoa mas como um cofre de dólares ambulante.

Eu tentava lembrar da fisionomia de Niklas. Parecia um garoto normal, exceto pelo fato de que viajava com um cachorro; seria ele um sequestrador oportunista? Mas que tipo de criminoso viaja de ônibus com seu bicho de estimação no colo?

Meus amigos venezuelanos diziam que o mais urgente era fazer uma denúncia na delegacia de Caracas. No quarto dia de sumiço, era um domingo, decidimos ir comunicar a polícia.

Depois, disse a Amry, eu mesmo iria a Mérida, reconstruir os passos de Mikhail e tentar encontrá-lo. Me senti um pouco estúpido após dizer isso em voz alta, porque o que exatamente eu ia fazer? Chegar na praça da cidade e perguntar se alguém tinha visto um gringo andando por aí? Espalhar retratos de “procura-se”? Ligar na rádio local? Pedir ajuda ao consulado russo?

Eu comecei a me sentir culpado por tê-lo deixado entrar sozinho naquele ônibus pirata. Comecei a imaginar Mikhail em um cativeiro, em um hospital, em um necrotério.

E então meu telefone tocou. Era uma mensagem de um número desconhecido e dizia simplesmente: “Adriano, é Mikhail, estou bem, acabei de chegar a Mérida. Estive antes em povoado aqui perto onde conversei com espíritos. Experiência interessante. Como está Caracas?”

Traduzi a mensagem a Amry, que revirou os olhos e disse, com um bufo: “Hijo de la puta!” E então rimos.

Aliviado com o não-sequestro, com a não-morte do russo, troquei mais algumas mensagens com ele para entender quem eram esses tais espíritos com os quais ele tinha falado. Mikhail disse que não saberia explicar e que eu teria que vê-los com meus próprios olhos.

***

Algumas semanas depois, estávamos eu, ele e um punhado de amigos em volta de uma fogueira no alto dos andes venezuelanos, em uma cabana de palha adornada de imagens de todos os santos da floresta, ouvindo um xamã de aparência antiquíssima dar explicações sobre o universo e os espíritos, sobre vida e sobre morte, sobre realidade e ilusão.

“Essa noite nós todos vamos morrer”, anunciou o xamã e um pedaço de brasa explodiu na fogueira, fazendo fagulhas voarem à altura de seus olhos. “E amanhã ressuscitaremos para uma nova vida”.

E então tomamos o “remédio”.

E então eu vi.

Uma nota sobre a crise na Venezuela

Zandy me convidou para o baby shower de sua prima Krupskaya, batizada em homenagem à Nadezhda “Nadya” Krupskaya, que foi revolucionária proeminente do partido bolchevique, ministra da Educação da URSS e esposa de Lenin. Já sua xará venezuelana casou-se com um brasileiro, esta grávida de uma menina e, a partir deste 7 de setembro, vai morar em Belo Horizonte para assistir bem de longe às idas e vindas da revolução socialista bolivariana.

No meio da festa, Zandy tomou o microfone e anunciou uma brincadeira para animar os convidados. Cada um deveria cortar um pedaço de barbante, e ganharia um brinde quem cortasse um pedaço que fosse do tamanho da barriga Krupskaya. Depois que a grávida mediu pacientemente o fio de cada convidado, a festa se tomou de espanto e surpresa quando, contrariando todas as expectativas, leis da física e da etiqueta, o pedaço de barbante que se revelou o mais próximo da circunferência abdominal da gestante foi… o meu (!!!)

Alguns convidados protestaram alegando que eu era um infiltrado contratado pelo pai da criança (ou seja, tudo se trataria de um complô brasileiro) para pregar uma peça na família (o pai não estava presente no momento e não pode se defender dessa torpe acusação).

Mas a justiça foi feita e eu fui confirmado vencedor da prova, fiz um agradecimento em português e recebi das mãos de Krupskaya o prêmio justo por meu desempenho.

O prêmio veio dentro de uma bolsa cor de rosa. E consistia em um maravilhoso…

… ROLO DE PAPEL HIGIÊNICO.

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Krupskaya e eu, feliz e contente com um sorriso nos dentes

Veja bem. A Venezuela vive uma crise sem precedentes ultimamente. Em tempo de escassez de produtos, em tempo de filas quilométricas para comprar as coisas mais básicas do dia-a-dia, um rolo de papel higiênico talvez seja o presente mais precioso que uma pessoa pode receber por aqui. Está em falta, não se encontra facilmente e é por isso que você pode ver venezuelanos andando na rua, no metro, nos ônibus, com grandes pacotes de papel higiênico debaixo do braço – ou porque eles saíram para um ponto distante da cidade para comprá-los ou porque eles apelaram aos “bachaqueros”, revendedores ilegais de mercadoria, uma das causas-consequências da crise de abastecimento.

Dentro do meu prêmio também tinha um sabão de banho, outro produto em falta. (Quando encontrei Zandy pela primeira vez aqui em Caracas, ela me presenteou com um pacote de sabão em pó, e depois disso eu pude enfim lavar minhas roupas).

Depois do baby shower, fui para uma balada em uma área nobre da cidade e na entrada, ao me revistar, o segurança abriu a bolsa com meu presente, armou um sorriso no rosto e disse: “Meu amigo, quanto você quer pelo papel higiênico?”

Talvez a característica que melhor comprove o bom caráter de um povo seja essa capacidade de fazer graça da própria desgraça e é por isso que eu tenho adorado todas as venezuelanas e venezuelanos que encontro por aqui.

***

Curiosidade: a segunda brincadeira do baby shower foi uma competição que exigia do participante a habilidade de dançar salsa e tomar rapidamente uma mamadeira cheia de cerveja. Dessa vez fiquei em segundo.

😦

O gigante verde

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No centro de Caracas, na frente da Assembleia Nacional Bolivariana, em um prédio comércio popular cujas paredes dizem que é proibido vender cartão de recarga para celular, vive um restaurante de fachada muito simples chamado O Gigante Verde (ou O Gigante Vegetariano, não lembro bem).

Ali, na companhia de meus anfitriões Julián e Aidmar (que tem 14 anos e confessou que preferia ter ido ao McDonalds), almocei essa incrível combinação de folhas, legumes, grãos e frutas.

Sopa, lasanha de beringela, arroz integral, três saladas, suco e sobremesa, tudo muito gostoso, me custaram 300 bolívares, ou menos de 2 reais no câmbio paralelo.

Já está na minha lista de melhores PFs do mundo!

É o tipo de maravilha feita para alegrar a alma e a barriga, que, como Pablo Neruda e Eduardo Galeano bem sabem, são dois nomes para a mesma coisa.

As voltas que uma língua dá

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O chão que se precisa limpar

Hoje meu trabalho foi lixar um piso de cerâmica de uma casa em construção para expurgar dele manchas de cimento. Passei boa parte da manhã e da tarde com um pedaço de esponja de aço esfregando o chão enquanto uma chuva persistente caía lá fora.

É um trabalho tão chato quanto parece ser, mas se não fosse chato talvez não se chamasse trabalho, e enquanto eu estou lá estirado no chão, Cristóban, um dos operários da obra, se aproxima e pergunta como estão as coisas.

Eu digo que estão bem, claro, e Cristóban analisa o resultado do meu trabalho e diz: “Tá ficando bem limpo. Depois é só passar uma camada de esperma por cima que não mancha nunca mais”.

Eu levei um tempo para processar aquela informação e quando já tinha me programado pra perguntar “passar o quê???” percebi que o bom Cristóban continuava falando, explicando as vantagens do esperma no dia a dia, alheio ao meu abandono intelectual.

“É batata: passa-se só uma vez e depois fica muito fácil de limpar. Lá em San Juan…”

Eu já sabia que Cristóban era natural do Llano, uma região no centro da Venezuela habitada por gente muito supersticiosa, mas esfregar esperma no chão para não sujá-lo já era superstição demais pra meu ceticismo de ocasião.

Então reuni forças e coragens, respirei fundo e fiz a pergunta que precisava ser feita. “Mas como é esse negócio de esperma?”

O pobre Cristóban me olhou como se eu tivesse perguntado qual a cor da grama ou quanto mede um metro. “Esperma”, respondeu. “O que se usa para fazer velas!”

Quando eu já sentia cheiro de queimado saindo do alto da minha cabeça, o valente Cristóban me saiu com um sinônimo salvador: “Parafina, conhece?”

Não sei como uma língua consegue conviver com esse constrangimento, mas em espanhol, esperma significa tanto parafina quanto o líquido que dá vida a todos os mamíferos e, portanto, deve ser comum donos de casa passarem esperma para lustrar móveis, surfista esfregarem esperma em suas pranchas e em seus cabelos, mulheres se depilarem com esperma quente e você ir na sua loja de material de construção preferida e pedir numa boa à atendente: me vê aí 1 litro de esperma!

Quem inventou o espanhol tá de parabéns.

[Nota do tradutor: me diz aqui o Google que o nome completo do produto é espermaceti, uma cera que era tirada da baleia, mas que hoje também se produz sinteticamente]

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Uma garrafa de azeite de esperma, porfa!

Medo e alívio na Venezuela

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Carona em um caminhão de areia para sair do Brasil

Acordei em Pacaraima, na fronteira brasileira com a Venezuela, me sentindo um estudante antes de uma prova decisiva no último dia do ano. Gaetan estava um pouco mais neurótico. “Nos van a violar, nos van a violar”, ele repetia e ria um riso nervoso e incontrolável. “Espera, vou fumar o último cigarro da minha vida”, e esvaziou mais uma carteira da marca barata que ele vinha fumando sem parar ultimamente.

Tínhamos lido e ouvido tanto sobre a delinquência na Venezuela que estávamos quase certos de que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Nosso maior medo eram os policiais da fronteira, que tinham fama de revistar as mochilas dos turistas e roubar-lhes em momentos de distração. Adotamos então uma política de redução de danos e distribuímos todo nosso dinheiro pelo corpo e em compartimentos improváveis da mochila para que quando nos roubassem, pelo menos não levassem tudo.

“Na Venezuela, vão te roubar. Isso é inevitável”, tínhamos lido em uma reportagem recente sobre um australiano que cruzou o país. “Mas tudo bem, porque se você reagir, vão te matar.” A crise econômica que castiga a população, as notícias sobre a violência incontrolável e os conselhos que estávamos ouvindo desde o começo sobre não confiar em ninguém e não conversar com estranhos nos faziam sentir nervosos e um pouco estúpidos, mas mesmo assim fomos em direção a Santa Elena do Uiarén, a primeira cidade venezuelana depois do Brasil.

No posto da Polícia Federal brasileira, os funcionários foram simpáticos e tentaram falar em francês com Gaetan, carimbaram nossos passaportes e nos desejaram boa viagem. No lado venezuelano, os trâmites foram feitos dentro de um ônibus, uma espécie de posto de fronteira ambulante, o que me soou estranho já que a fronteira entre o Brasil e a Venezuela está no mesmo lugar desde o século 19, mas entramos e respondemos todas as perguntadas no tom calmo de um monge tibetano.

Os policiais venezuelanos também foram bastante simpáticos e num caderno anotaram nossos nomes, profissões e objetivos de viagem – dissemos que íamos fazer trabalho voluntário, o que era verdade pra mim mas não pra Gaetan, que só estava na Venezuela para ver o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo.

Saímos do ônibus-fronteira e vimos uma sala com a placa REVISION DE EQUIPAJE e trememos porque nosso maior medo era o que podia acontecer quando abrissem nossas mochilas: roubo, coação, intimidação, extorsão, tudo parecia plausível. “Pronto, é aí que nos vão violar”, disse Gaetan, mas a sala estava vazia e passamos direto por ela e entramos numa estrada infinita e curvilínea que ia direto para ao coração da Venezuela, cruzando a Gran Sabana e suas planícies intermináveis. Caminhamos por uns dez metros para nos certificar de onde estávamos e percebemos que sim, era verdade: tínhamos entrado na Venezuela e nada tinha acontecido. Parecia improvável.

O que aconteceu foi o seguinte. Ainda caminhando, antes que sequer tivéssemos tempo de levantar o dedo, um motorista dirigindo uma caminhonete parou e disse “vamo, subam” e apontou a traseira do carro onde viajavam outros dois caras, um deles com uma jaqueta vinotinto. Nós dissemos que estávamos indo a Santa Elena, que ficava a uns 20 km da fronteira e o cara apenas repetiu subam e subimos para uma carona não solicitada, e enquanto cruzávamos a estrada e o vento forte jogava para longe nossos desesperos Gaetan perguntou: “não te sentes livre?” e olhou para o horizonte ensolarado da Gran Sabana venezuelana, para as montanhas mais antigas do planeta e eu disse que sim e fiquei pensando na improbabilidade das coisas e em que outros sentimentos aquele país ainda nos reservaria.

O cara nos deixou exatamente aonde queríamos, nos indicou onde trocar dinheiro e disse que ali as coisas eram muito tranquilas e que fizéssemos uma boa viagem, e isso tudo aconteceu na Venezuela, o lugar onde tudo de ruim pode te acontecer porque todos querem te passar a perna.

Mas também aconteceu mais.

Falando em línguas em Caiena – ou como abrir portas sem ter a chave

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Único território europeu na América do Sul, a Guiana Francesa soa como um retrato do que poderia ter sido o nosso continente caso os hoje conhecidos como “Libertadores da América” tivessem preferido deitar em berço esplêndido a brigar por emancipação.

Caiena, a capital, é um lugar anacrônico por definição, onde o Carrefour consegue vender produtos até 40% mais caros do que em Paris, onde o transporte público é virtualmente inexistente e onde boa parte da população, incluindo muitos brasileiros, vive em casas paupérrimas em um bairro conhecido como Chicago (Chicagô, na pronúncia francesa).

Quando cheguei, fui recebido por um grupo de amigos de Anais, uma jovem bióloga que trabalha no único hospital da cidade.

Era uma galera animada, todos na faixa dos 20 e poucos anos, nascidos na França, com empregos estáveis na Guiana e muitas aventuras na América do Sul.

Todos menos Erwan.

Erwan era o único negro, o único que tinha nascido na Guiana, o único que estava desempregado e único que falava um pouco de português.

Eu sabia que a Guiana Francesa seria talvez o lugar mais desafiador da minha viagem, não apenas por ser o lugar mais caro do continente (disputando apenas com algumas cidades brasileiras, aka Rio e SP), mas também porque era o único em cuja língua eu não sabia me virar.

(Obviamente, não sei dizer nem Socorro! em holandês, mas falar a língua inglesa é habilidade comum para a maioria dos habitantes do Suriname, qualidade de que carecem seus vizinhos franceses)

No meu primeiro encontro com esse grupo de uns dez jovens moradores da Guiana, percebi que apenas dois falavam inglês com desenvoltura, então arrisquei me apresentar e contar a minha história em francês macarrônico e tudo que consegui foram olhares de compaixão e frases motivacionais que eu só entendi por virem acompanhadas de muita linguagem corporal e uma entonação condescendente.

Mas Erwan se aproximou durante os preparativos para o almoço e disse, palavras pingando como gotas no telhado, que conseguia falar português.

Isso ele disse com um largo e branquíssimo sorriso e eu entendi mais como um gracejo e boas vindas do que como uma informação precisa.

Acontece que Erwan realmente conseguia transmitir sua mensagem em nossa língua. Não havia conjugação verbal, concordância, tempos passados ou futuros, mas ela estava ali, a língua portuguesa de Machado de Assis e Carolina de Jesus, tropeçando na boca de um estrangeiro que do Brasil só havia visitado a minúscula cidade do Oiapoque, e por alguns dias.

Perguntei se ele tinha aprendido na escola. “Non”, respondeu Erwan. “Ele tem muito amigo brasileiro” (Na peculiar gramática desse legítimo guianense, não havia pronomes como Eu, Nós, Ela etc e todas as pessoas do mundo atendiam pelo pronome “Ele”).

É verdade que todos que eu conheci nesse território ultramarino europeu foram simpáticos, hospitaleiros e fizeram tudo que podiam para que eu me sentisse “em casa”, mas Erwan foi um cara que, além disso, me fez repensar o próprio conceito de “casa”.

Porque se o planeta Terra é o condomínio de todos nós, às vezes nos sentimos separados pelos vizinhos do quarto ao lado por uma parede que se chama língua ou, extrapolando, cultura. Existe a noção de que você até pode dar bom dia e ter uma boa relação com o vizinho que fala uma língua que você não fala ou compartilha códigos culturais diferentes, mas você só vai se sentir à vontade, “em casa”, com gente com quem tenha alguma coisa em comum.

Isso deve ser verdade na maioria dos casos, porque o ser humano é constituído quase 100% de linguagem, mas existe também algo que vai além disso.

Muitas vezes, eu e Erwan tínhamos uma dificuldade monumental de comunicação, e tínhamos de repetir, gesticular e em várias situações até desistir, engolir a frustração e ir em frente, mas mesmo assim, ele foi o cara que me levou para conhecer o coração dessa cidade colonial francesa de um jeito que meus amigos metropolitanos não conseguiriam.

Além dos pontos turísticos, passamos pelo Chicagô e ele me apresentou seus amigos surinameses, brasileiros e guianenses, nós bebemos juntos, saímos para dançar com sua namorada francesa, e quando chegou a hora de se despedir, eu disse que gostaria de visitar Cacao, uma vila monga no interior.

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Os mongos são uma das minorias étnicas do país. Naturais do Laos, ele lutaram ao lado de americanos e franceses contra a China na guerra da Indochina no século passado e, perseguidos pelo governo chinês, fugiram da Ásia. Uma parte da comunidade foi para os EUA, mas alguns aceitaram a oferta francesa e foram parar na Guiana.

Percebendo meu interesse pela história, Erwan não mediu esforços para que eu tivesse a melhor experiência possível em Cacao.

Telefonou a Elvis, seu amigo mongo, e combinou um encontro entre nós três para que eu conhecesse melhor a realidade da comunidade. Através de Elvis, eu conheci Lucas, filho de uma brasileira que vive há décadas entre os mongos e me hospedou por dois dias em Cacao, mas a curiosa história dessa mistura étnica na Guiana, eu vou contar com mais detalhes depois.

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A CHAVE

O meu contato com Erwan e os esforços de comunicação foram uma prévia do que eu viveria nos dez dias em que fiquei na Guiana Francesa. Lembro por exemplo de Nico, um designer de móveis que falava apenas francês e com quem tive longas conversas sobre política, história e colonialismo, eu garimpando cada palavra como se fossem pepitas de ouro, e tentando juntar todas em busca de um sentido.

Pacientemente, ele me ensinava as palavras mais básicas e esse vocabulário seria muito útil alguns dias depois quando eu fosse tentar sair do país de carona.

Se você tem dinheiro para ser um turista, talvez consiga chegar até a lua desde que o cartão de crédito tenha limite para a passagem. Se você não tem, o que te levará adiante é, por um lado, seu dedo levantado na estrada e, por outro, sua história, sua mensagem e – aqui está a chave para abrir todas as portas – seu interesse sincero pelos lugares e pelas pessoas que os habitam.

Perguntar não ofende e até cativa, porque todo mundo deve se sentir lisonjeado quando um estrangeiro se esforça para se integrar, o máximo possível, na cultura local.

Se você não fala a língua, o desafio é maior, mas não intransponível, e eu teria certeza disso no meu último dia no país, quando umas 10 pessoas, muitas monoglotas, me dariam pequenas caronas rumo ao rio Maroni, na fronteira com o Suriname.

Cair no sono na pior estrada do mundo

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Eu tava com tanto sono, que me ajeitei embaixo do primeiro filete de sombra, deitei na grama seca e dormi enquanto todos os pequenos animais da região tentavam insistentemente me devorar – moscas barulhentas, formigas de várias cores e tamanhos, uma abelha perdida e solitária.

Tínhamos dirigido a noite inteira e a ideia de tentar vencer a pior estrada do mundo no escuro tinha se mostrado, convenientemente, a pior ideia do mundo, porque o carro atolara duas vezes e agora jazia à minha frente, morto, sem motor, tão útil quanto um saco de batata molhado.

JB tinha ido buscar ajuda no Oiapoque enquanto eu ficara ali no meio do nada, vigiando o carro e todas as nossas coisas e, ao mesmo tempo, tentando não morrer de insolação.

Tínhamos passado toda a madrugada desviando de buracos e tentando tirar o carro de atoleiros porque a pior estrada do mundo tem centenas de quilômetros de puro barro e quando chove, o que acontece ao menos uma vez por dia nessa época do ano, o chão vira uma massa laranja espessa e grudenta, intransponível a carros pequenos e sem tração nas quatro rodas, como o nosso.

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Mesmo sabendo disso, JB tinha decido encarar essa aventura de madrugada porque seu coração reside na fronteira tênue entre a extrema bravura e a estupidez e, para gente como ele, tudo vai dar certo no final.

“Tá tudo certo, tudo certo, eu tenho um amigo que vai nos tirar dessa rapidinho, você vai ver”, disse ele,  mais para si mesmo do que pra mim, depois de se certificar que o motor do saveiro não tinha mais salvação.

Ele conseguiu uma carona com uns caras que tínhamos conhecido no atoleiro anterior e foi buscar algum ponto da estrada onde houvesse sinal telefônico. “Eu só preciso ligar para esse meu amigo, não vai levar mais de uma hora e estaremos fora daqui.”

Levou seis horas até que ele voltasse.

Nesse período, eu dormi no chão ao lado do carro, e quando as formigas me acordaram tentando tirar pedaços da minha pele, o caseiro de uma fazenda ali perto veio perguntar se estava tudo bem.

***

Se chamava Gutierrez e conhecia bem os horrores daquela estrada, achou maluquice tentar atravessá-la naquela época sem uma 4×4 e me convidou a entrar na fazenda para fugir do calor monumental do lado de fora.

Pedi um pouco de água e ele me trouxe uma garrafa de 2 litros geladíssima, que eu bebi como se tivesse vivido os últimos cinco anos no deserto.

Era umas 2h da tarde e eu tava morrendo de fome. Perguntei a Gutierrez se ele não tinha algo que eu pudesse mastigar pra enganar o estômago e ele disse que já tinha comido toda a carne, mas que as galinhas tinham acabado de pôr ovos e então eu almocei ovo frito com farinha, o que me caiu como um banquete real.

Passamos o resto da tarde conversando sobre a Guiana Francesa, a vida no garimpo e nas vilas agrícolas dos mongos, lugares onde ele tinha trabalhado durante anos. Ele era um cara esperto, tinha experiência em driblar a polícia europeia e de vez em quando cruzava a fronteira atrás de pepitas de ouro e euros, cuja maior parte gastava com bebidas e mulheres, nessa ordem.

Enquanto o sol caía eu comecei a pensar que talvez JB não conseguisse chegar naquele dia e eu tivesse que passar a noite na fazenda, então comecei a procurar um lugar para armar minha barraca.

Mas então, no final da tarde, vi uma 4×4 barulhenta cortando a estrada e JB me acenando da janela junto com outros dois caras, os salvadores que ele fora buscar no Oiapoque.

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Eles tinham decidido deixar o saveiro quebrado na fazenda e só fazer o resgate quando as chuvas dessem trégua porque com a estrada naquela condição era impossível passar sem um carro adequado.

Assim, me despedi de Gutierrez e embarcamos na 4×4 dirigida por um sujeito muito bacana que se apresentou como O Barbudo, um cara que também era meio careca e parecia conhecer todo mundo que vivia ou trabalhava perto da estrada, porque ia parando para falar e cumprimentar cada pessoa que cruzasse seu caminho, motoristas de caminhão, índios, vendedores ambulantes e pastores evangélicos com suas bíblias sob o braço e os tornozelos enfiados na lama.

No caminho, JB me deu um balde de pipoca cheio de frango, arroz e feijão tropeiro, quase 1 kg de comida que eu devorei com satisfação enquanto ele cochilava a despeito dos solavancos da estrada.

Demos carona a um motorista cujo caminhão tinha ficado atolado e encontramos até o filho do prefeito semi-enterrado no barro: ele tinha um guincho e passava o dia inteiro tirando carros e caminhões do lamaçal.

Quando finalmente chegamos na última (ou primeira) cidade do Brasil, JB alugou um quarto numa pousada barata (20 reais a diária) e pulou na rede e dormiu imediatamente como se tivesse passado as últimas 24h domando bois selvagens e eu cai na cama depois de tentar tirar um pouco do barro do meu único par de tênis.

No dia seguinte, tomamos o café da manhã bem cedo e JB insistiu para que eu comesse mais e mais e eu devorei quatro pães carecas com manteiga e duas grandes canecas de café. “Você nunca sabe quando será sua próxima refeição”, aconselhou sabiamente.

Fomos à beira do rio Oiapoque, que marca a fronteira com a Guiana, e um amigo do JB (o mesmo que tinha ido nos resgatar) me conseguiu um desconto de 5 reais na travessia e uma boa cotação pra comprar euros.

Me despedi do cara que tinha me dado a primeira carona da jornada com um aperto de mão e um abraço, agradeci toda a ajuda que ele tinha me oferecido, e ele disse que iria ao Suriname em algumas semanas e que me procuraria lá.

Na noite anterior, JB havia dito que também tinha o mesmo espírito aventureiro que viu em mim e que em breve pegaria um carro e sairia de Fortaleza a Venezuela e esperava que a gente pudesse ir juntos até o alto de uma montanha no Chile. “Vai me dar uma doida, você vai ver, me espera”, ele dizia.

Então, embarquei.

Eu era o único passageiro do barquinho motorizado que desenhou uma efêmera cicatriz no leito do rio Oiapoque, indo em direção à Amazônia francesa e deixando para trás a imensidão da floresta brasileira.

Em dez minutos finalmente pisaria em solo francês ainda com os dedos dos pés alaranjados de barro, mas com o espírito renovado para o início da jornada sulamericana.